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Tatiane Duarte | Escrita Reflexiva, Autoconfiança e Desenvolvimento Humano

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Setembro Amarelo e Escrita Reflexiva: como a escrita pode criar espaços de cuidado nas equipes

Setembro Amarelo para Empresas: Escrita Reflexiva e Equipes | Tatiane Duarte

Neste Setembro Amarelo, talvez uma das formas mais simples de cuidar de alguém seja criar espaço para que ela consiga colocar em palavras aquilo que está vivendo.

Existe uma diferença enorme entre pensar sobre a própria vida e conseguir escrever sobre ela.

Na cabeça, os pensamentos chegam todos ao mesmo tempo.

Uma preocupação puxa outra. Uma lembrança encontra um medo. Uma cobrança se mistura com outra. E, quando percebemos, estamos cansados sem sequer saber exatamente do quê.

É nesse lugar que a escrita pode se transformar em uma ferramenta poderosa de reflexão.

Não porque o papel tenha respostas mágicas.

Mas porque, quando colocamos uma ideia para fora, conseguimos finalmente olhar para ela.

Escrever é mais do que registrar o que aconteceu

Recentemente, um estudo publicado no Journal of Consulting and Clinical Psychology, conduzido por pesquisadores da Universidade Cornell, chamou atenção para os possíveis benefícios da escrita reflexiva.

A pesquisa acompanhou 112 jovens adultos, entre 18 e 29 anos, que apresentavam sintomas moderados a graves de depressão.

Durante duas semanas, os participantes escreveram diariamente. Mas havia uma diferença importante: um grupo registrava aspectos do cotidiano, enquanto o outro era conduzido a refletir sobre experiências pessoais, identidade, valores, trajetória e perspectivas para o futuro.

Os dois grupos apresentaram melhora inicial.

Porém, os efeitos permaneceram entre aqueles que fizeram uma reflexão mais profunda sobre a própria história. Os pesquisadores observaram aumento de percepções positivas sobre si mesmos e uma redução da sensação de desconexão entre passado, presente e futuro.

Isso me chamou atenção por uma razão muito simples:

talvez escrever não seja apenas uma forma de contar a nossa história. Talvez seja também uma forma de voltar a enxergá-la.

Quando escrevemos, podemos perceber que não somos apenas aquilo que aconteceu conosco.

Somos também aquilo que aprendemos, aquilo que escolhemos, aquilo que ainda desejamos construir.

E existe uma diferença enorme entre essas duas perspectivas.

A escrita pode criar um lugar para aquilo que não conseguimos dizer

É aqui que faço uma conexão especial com o Setembro Amarelo.

A campanha nos convida a falar sobre saúde mental, prevenção do suicídio, acolhimento e valorização da vida. O Ministério da Saúde reforça que reconhecer sinais de sofrimento, escutar e incentivar a busca por ajuda são atitudes importantes na prevenção.

Mas existe uma pergunta anterior a muitas dessas conversas:

como está a conversa que você tem consigo mesmo?

Às vezes, passamos tanto tempo tentando dar conta da vida que não percebemos o que está acontecendo dentro de nós.

Seguimos trabalhando.

Cuidando dos filhos.

Respondendo mensagens.

Pagando contas.

Cumprindo compromissos.

Sorrindo.

E, por dentro, existe uma conversa que nunca termina.

A escrita pode ser uma pausa nesse fluxo.

Uma espécie de encontro consigo.

Não necessariamente para encontrar uma solução naquele momento.

Às vezes, simplesmente para reconhecer:

“É isso que está acontecendo comigo.”

E reconhecimento também é cuidado.

Foi dessa percepção que nasceu o Método Diário de Mim

Eu acredito profundamente que palavras constroem sonhos.

Mas, antes de construir novos sonhos, muitas vezes precisamos organizar as palavras que já estão dentro de nós.

Foi desse entendimento que criei o Método Diário de Mim, uma prática de escrita reflexiva estruturada em quatro movimentos:

Desacelerar.
Organizar.
Reconhecer.
Reescrever.

Primeiro, desaceleramos o ruído.

Depois, organizamos aquilo que está embaralhado.

Reconhecemos o que estamos pensando, sentindo, repetindo e desejando.

E então podemos reescrever.

Não no sentido de apagar o passado.

Mas de perceber que uma história pode ganhar novos significados.

Porque existe uma coisa que aprendi ao longo da minha própria caminhada:

quando você muda a maneira como conta a sua história para si mesma, começa a mudar também a maneira como se posiciona diante da vida.

Não é sobre escrever bonito. É sobre escrever verdadeiro.

Essa talvez seja uma das maiores confusões que encontro quando falo sobre escrita.

Muita gente pensa que precisa saber escrever bem para começar.

Não precisa.

Você não precisa escrever como escritora.

Não precisa ter um diário perfeito.

Não precisa usar palavras bonitas.

Não precisa produzir um texto que alguém vai ler.

A escrita reflexiva não começa pela gramática.

Começa pela honestidade.

Às vezes, uma frase simples como:

“Eu estou cansada de tentar dar conta de tudo.”

já diz mais sobre o seu momento do que páginas inteiras escritas apenas para parecer que está tudo bem.

É quando paramos de escrever para impressionar e começamos a escrever para nos escutar que o papel ganha outra função.

Ele deixa de ser apenas um lugar onde colocamos palavras.

E passa a ser um lugar onde conseguimos nos encontrar.

E isso também pode chegar às empresas

Quando pensamos em saúde emocional no trabalho, normalmente pensamos em palestras, campanhas, benefícios, rodas de conversa e programas de qualidade de vida.

Tudo isso é importante.

Mas também precisamos criar espaços para que as pessoas parem.

Respirem.

Reflitam.

Percebam como estão chegando naquele ambiente todos os dias.

Foi por isso que desenvolvi também o treinamento de aplicação do Método Diário de Mim para equipes.

A proposta não é transformar gestores em terapeutas, nem utilizar a escrita como tratamento psicológico.

É ensinar uma prática simples e estruturada de escrita reflexiva que pode ser utilizada em momentos de desenvolvimento, integração, reflexão e autoconhecimento.

Uma equipe também é formada por pessoas.

E pessoas carregam histórias.

Quando uma organização cria espaços seguros para reflexão, pode favorecer uma cultura de mais consciência, escuta e responsabilidade sobre a própria jornada.

Porque, antes de melhorar uma relação com o outro, muitas vezes precisamos perceber como estamos nos relacionando conosco.

Setembro Amarelo nos lembra de uma coisa essencial

Prevenção não acontece somente quando alguém chega ao limite.

Ela também acontece quando aprendemos a perceber antes.

Quando perguntamos de verdade:

“Como você está?”

E temos disposição para ouvir a resposta.

Quando deixamos de tratar sofrimento como frescura.

Quando entendemos que pedir ajuda não é sinal de fraqueza.

Quando construímos ambientes onde as pessoas podem falar.

E, principalmente, quando aprendemos a não ignorar aquilo que acontece dentro de nós.

A escrita não substitui psicoterapia, acompanhamento médico ou qualquer tratamento de saúde mental quando ele é necessário. O próprio estudo que inspirou esta reflexão reforça esse cuidado.

Mas a escrita pode ocupar um lugar muito bonito na nossa vida:

o lugar da pausa.
Da reflexão.
Do reconhecimento.
Da construção de sentido.

E talvez seja justamente isso que tantas pessoas estejam precisando hoje.

Não de mais uma resposta pronta.

Mas de alguns minutos para parar, respirar e perguntar:

“O que está acontecendo dentro de mim?”

E colocar a resposta no papel.

Porque, às vezes, quando conseguimos escrever aquilo que sentimos, começamos finalmente a conseguir olhar para aquilo que estamos vivendo.

E quando conseguimos olhar, podemos escolher o próximo passo.

Escrever é uma forma de dar voz ao que existe dentro.
E toda vida que pode ser escutada tem a possibilidade de encontrar novos caminhos.

Sobre o Método Diário de Mim

O Diário de Mim é uma metodologia de escrita reflexiva criada por Tatiane Duarte, escritora, palestrante e facilitadora de experiências de desenvolvimento humano.

Por meio de quatro movimentos, Desacelerar, Organizar, Reconhecer e Reescrever, o método propõe uma prática de aproximadamente 15 minutos para transformar a escrita em um espaço de pausa, reflexão e construção de novas perspectivas.

A metodologia também pode ser aplicada em palestras, workshops e treinamentos para equipes, adaptando a experiência de escrita reflexiva ao contexto de desenvolvimento humano e organizacional.

Palavras constroem sonhos. Mas, antes de escrever novos sonhos, talvez seja preciso escutar a história que estamos contando para nós mesmos.

Para saber mais

O estudo mencionado nesta reflexão foi divulgado pela IstoÉ, em matéria produzida pela Agência Einstein:

“Escrita terapêutica alivia sintomas de depressão, sugere estudo”, IstoÉ

Em caso de sofrimento emocional intenso ou risco de suicídio, procure ajuda profissional. No Brasil, o CVV atende gratuitamente pelo 188, 24 horas por dia. O Ministério da Saúde também orienta a busca por CAPS, Unidades Básicas de Saúde, UPAs, SAMU 192, pronto-socorro ou hospitais, conforme a situação.

Fonte: https://istoe.com.br/escrita-terapeutica-depressao-estudo

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