Em meio ao excesso de estímulos, escrita pode ajudar jovens a expressar emoções.
Como escritora, acredito muito no poder da escrita como ferramenta para lidarmos com nossas emoções.
É inegável que as tecnologias, principalmente a inteligência artificial, facilitaram muito a nossa vida. Elas trouxeram descobertas, ampliaram o acesso ao conhecimento e contribuíram para avanços importantes em diversas áreas, inclusive na saúde.
Mas toda transformação também traz novos desafios.
E talvez uma das maiores questões do nosso tempo seja aprender a conviver com a velocidade de informações, notificações, telas e estímulos sem perder a capacidade de olhar para dentro.
Os jovens estão crescendo nesse cenário.
E isso muda a forma como aprendem, se comunicam, trabalham e até como expressam aquilo que sentem.
Quando existe muito para consumir e pouco tempo para elaborar
Todos os dias somos convidados a consumir alguma coisa.
Uma mensagem.
Um vídeo.
Uma notícia.
Uma opinião.
Uma tendência.
Um conteúdo produzido por inteligência artificial.
Uma conversa nas redes sociais.
Tudo acontece muito rápido.
Mas existe uma diferença entre receber uma informação e elaborar uma experiência.
Nem sempre temos tempo para parar e perguntar:
O que eu estou sentindo?
Por que isso me afetou tanto?
O que eu penso sobre isso?
Como posso falar sobre o que está acontecendo comigo?
Para alguns jovens, encontrar essas respostas pode ser ainda mais difícil.
Não necessariamente porque não tenham o que dizer.
Mas porque ainda estão aprendendo a transformar experiências e emoções em palavras.
E é justamente aí que a escrita pode abrir uma porta.
O impacto do bullying e do cyberbullying
Esse assunto ganha ainda mais importância quando falamos de adolescentes e jovens que passaram por situações de bullying ou cyberbullying.
Segundo dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) 2025, divulgados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 17% dos estudantes brasileiros de 15 anos relataram ter sido vítimas de pelo menos uma forma de bullying algumas vezes por mês ou mais no ano anterior à pesquisa. A média entre os países da OCDE foi de 20%.
O estudo também avaliou situações de cyberbullying. No Brasil, 3% dos estudantes brasileiros de 15 anos relataram que informações perturbadoras sobre eles foram publicadas online, sem seu consentimento, pelo menos algumas vezes por mês nos 12 meses anteriores à aplicação do PISA. O percentual foi igual à média registrada nos países da OCDE.
Fonte: https://jc.uol.com.br/colunas/enem-e-educacao/2026/09/11/em-meio-ao-excesso-de-estimulos-escrita-pode-ajudar-jovens-a-expressar-emocoes.html
Esses números não contam a história individual de cada jovem.
Mas ajudam a dimensionar um problema que muitas famílias, escolas e profissionais já percebem no cotidiano.
Quando alguém se sente exposto, humilhado ou vulnerável, falar sobre o que aconteceu pode ser difícil.
Às vezes existe vergonha.
Medo de não ser compreendido.
Medo de piorar a situação.
Medo de ser julgado.
Ou simplesmente falta de palavras.
Por isso, ampliar os caminhos de expressão pode ser importante.
E a escrita pode ser um deles.
A escrita não precisa começar com uma resposta
Talvez uma das coisas mais bonitas da escrita seja justamente essa: ela permite começar sem saber onde vamos chegar.
Uma pessoa pode pegar uma folha e escrever: “Eu não sei o que estou sentindo.”
E tudo bem.
Pode continuar: “Mas sei que alguma coisa não está bem.”
Depois: “Fiquei com raiva quando…”
E talvez, algumas linhas depois, encontre algo que não conseguia dizer antes.
A escrita não precisa entregar uma conclusão.
Pode simplesmente abrir uma conversa.
E essa conversa pode ser o começo da busca por ajuda, de uma conversa com alguém de confiança ou de uma compreensão maior sobre aquilo que está sendo vivido.
Foi dessa experiência com a escrita que nasceu o Diário de Mim
Foi observando justamente esse poder das palavras que criei o Método Diário de Mim.
Uma metodologia de escrita reflexiva estruturada em quatro passos:
Desacelerar.
Colocar no papel aquilo que está confuso.
Organizar.
Separar o que é fato do que estou interpretando sobre a situação.
Reconhecer.
Perceber pensamentos, emoções, padrões e histórias que estamos contando para nós mesmos.
Reescrever.
Encontrar novas possibilidades de pensar, sentir e agir.
A proposta é simples: transformar 15 minutos de escrita em um espaço de reflexão.
Não é sobre escrever bonito.
Não é sobre produzir um texto perfeito.
É sobre conseguir se ouvir.
E quando esses jovens chegam ao mercado de trabalho?
Essa conversa não termina quando o jovem sai da escola.
Ela chega às empresas.
A cada ano, novas gerações entram no mercado de trabalho trazendo formas diferentes de aprender, se comunicar, consumir informação e se relacionar com o trabalho.
Ao mesmo tempo, profissionais de diferentes gerações precisam aprender a trabalhar juntos.
E aqui existe um desafio interessante para as empresas: como criar espaços de comunicação em que pessoas com experiências e formas diferentes de enxergar o mundo consigam trabalhar juntas?
Talvez a resposta não esteja apenas em ensinar uma geração a compreender a outra.
Talvez também esteja em criar espaços para que cada pessoa consiga compreender melhor a si mesma.
A escrita reflexiva pode contribuir nesse processo.
Escrita reflexiva também pode ser uma ferramenta para equipes
Imagine uma equipe em que, antes de uma conversa sobre comunicação, cada pessoa recebe uma pergunta:
“O que eu faço quando sinto que minha opinião não está sendo ouvida?”
Ou, em um treinamento sobre liderança:
“Que experiência da minha história influencia a maneira como lidero hoje?”
Ou ainda, em um encontro entre profissionais de diferentes gerações:
“O que eu gostaria que pessoas de outras gerações compreendessem sobre a minha forma de trabalhar?”
A proposta não é transformar a escrita em terapia.
É criar uma experiência de reflexão.
Porque, quando uma pessoa consegue organizar aquilo que pensa antes de falar, talvez consiga também se comunicar melhor.
E quando conseguimos compreender melhor nossas próprias experiências, podemos criar mais espaço para compreender as experiências do outro.
É nesse território que venho desenvolvendo palestras, workshops e treinamentos para equipes, utilizando a escrita como ferramenta de desenvolvimento humano.
Talvez estejamos precisando de menos respostas prontas
A inteligência artificial consegue produzir respostas em segundos.
A tecnologia consegue acelerar processos que antes levavam horas.
Temos acesso a mais informação do que qualquer geração anterior.
Mas existe algo que nenhuma tecnologia deveria fazer por nós: pensar sobre a nossa própria experiência.
Perguntar quem somos.
O que sentimos.
O que queremos.
O que estamos vivendo.
O que precisamos mudar.
O que queremos preservar.
Talvez, justamente por vivermos em um mundo cada vez mais rápido, seja importante recuperar espaços de lentidão.
Uma folha.
Uma caneta.
Uma pergunta.
Alguns minutos.
E a liberdade de escrever sem precisar encontrar imediatamente a resposta certa.
Escrever é também criar espaço para se escutar
Eu acredito que a escrita pode ser muito mais do que uma ferramenta de comunicação.
Ela pode ser um espaço de encontro.
Com nossas ideias.
Com nossas emoções.
Com nossa história.
E, principalmente, com aquilo que ainda estamos tentando compreender.
Por isso, meu trabalho como escritora não está apenas nos livros que escrevo.
Está também na criação de experiências que convidam outras pessoas a escrever.
A colocar em palavras.
A reconhecer.
A reescrever.
Não é sobre escrever bonito. É sobre escrever para se escutar.
E talvez, em meio a tanto barulho, essa seja uma das formas mais simples de começar a ouvir o que realmente importa.
Sobre o Método Diário de Mim
O Método Diário de Mim, criado por Tatiane Duarte, é uma metodologia de escrita que utiliza quatro passos, Desacelerar, Organizar, Reconhecer e Reescrever, para transformar a escrita em uma ferramenta de pausa, reflexão e desenvolvimento humano.
A metodologia pode ser aplicada individualmente e também em palestras, workshops e treinamentos para equipes, inclusive em experiências voltadas para comunicação, integração, desenvolvimento de pessoas e relacionamento entre diferentes gerações no ambiente de trabalho.
Palavras constroem sonhos.
E, antes de escrever novos capítulos, talvez seja preciso encontrar palavras para compreender o capítulo que estamos vivendo.
Fontes e referências
A reflexão sobre jovens, escrita, excesso de estímulos, bullying e cyberbullying parte de matéria publicada pelo Jornal do Commercio em setembro de 2026.
Os dados sobre bullying e cyberbullying apresentados neste artigo são do PISA 2025, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

